quarta-feira, 20 de maio de 2015

EU, FACEBOOKIANDO: «OS DESPERDÍCIOS, PARA ATRAIR ABUNDÂNCIA...POIS!..»

    Desde há muito tempo, tem aparecido, tanto por e-mail como no facebook, mensagens a prevenir-nos de que não devemos acumular inutilidades, deve dar-se volta aos armários atafulhados e trocar, vender, doar...
    Dizem que guardar, é pensar que, um dia, vamos precisar daquelas coisas. E que a Natureza é pródiga em nos dar tudo o que precisamos.
    Bom! Tenho de dar razão aos chineses, pois dizem à descarada que vão tomar conta da Europa, pois os europeus só querem festas, lazer, futebol, não querem trabalhar, são consumistas e só andam a dividir o que têm, ora passando para uns, ora passando para outros...
    Eu sempre me estive nas tintas para as críticas que algumas pessoas me faziam e, se não continuam a fazer, é porque meu estilo de vida actual me permite fechar a porta a cuscas e viver sem ter de dar satisfações a quem que que seja, ou antes, a quem tinha o atrevimento de me seguir pela casa toda e enfiar os seus pescoço  nos meus armários, quando eu era forçada a abrir algum na suas presença... Pareciam girafas, tal o comprimento que alguns pescoços atingiam... Mandavam-me deitar tudo fora, para ter os armários com menos coisas, mais leves... «Não use isso! Não precisa! Compre roupas novas, isso já não se usa!» Mas, como nunca fui pessoa de ter carteira pesada, nunca  quis leveza nos meus armários: tudo  me custou muito a adquirir, tudo!
     Vamos por partes... Quando eu ia com mais frequência à minha freguesia, havia lá uma pessoa que me dava muitíssima roupa para eu trazer para qualquer instituição, pois lá há muita vaidade e as pessoas não gostam de vestir os trapinhos das vizinhas mais "ricas", dizem que elas não são mais "camim"!
      Então, eu ia levar a uma instituição chamada «Porta Aberta da AMI». Tinha de apanhar um autocarro, um comboio e um metropolitano, carregada com a sacada de roupa. Depois, os mesmos transportes de regresso. Uma manhã ou uma tarde perdida. Um dia, ouvi um comentário quando ia a sair, que me fez crescer as orelhas... Aguardei que saísse algum utente desses que estavam a comentar e interroguei-o. Explicou-me que as roupas luxuosas ficavam na "casa",  as roupas mais simples deitam fora, vem aí uma camioneta da autarquia e leva para o lixo, porque são roupas a mais, só escolhem as melhores.
       Acabei por ser informada de que numa localidade bem perto de onde vivo, havia (há) uma instituição de caridade que fornece alimentos e agasalhos aos necessitados. Assim que trouxe mais roupas, fui lá.  As freiras disseram que levasse tudo de volta, pois deixaram de aceitar roupas. E contaram que, um dia, um sem-abrigo ia provocando um acidente quando atirou com a sacada da roupas fora, logo à saída, e ia um automóvel a passar. E, para finalizar, uma das freiras disse-me textualmente estas palavras: «Se quer ajudar os sem-abrigo, dê-lhes dinheiro para eles comprarem roupas novas, pois eles não se importam de ter barriga vazia, mas bem trajados!»
     Bem! Eu vejo montanhas de roupas impecáveis junto dos caixotes do lixo, apesar de também ainda colocarem algumas nos locais próprios, disponibilizados pelas instituições de caridade. Portanto, dar...? A quem?! Vender, upa!upa! Se não querem dada, vão comprar? E  roupa que é aceite à consignação em determinados estabelecimentos, é só a de "madames", de luxo. Qualquer pelintra pode comprar e fazer vista...
     Deitar fora os meus trapinhos? A que propósito eu faria isso? Eu ainda passajo peúgas... Eu ainda coso e concerto meus trapinhos... E ficam muito bonitos! Quanto têm um buraco, meto na máquina e cubro-o com uma flor bordada. E vou dar volta aos roupeiros e encontro sempre aquele pedacinho que fica ali muito bem! E se me dá na mona de deitar algo fora, descubro que fiz mal logo daí a dias quando lhe achei utilidade.
   É atrair a pobreza? É atrair a gratidão da minha carteira e da Mãe Natureza, que me envia logo uma carrada de bênçãos, com um bilhetinho que só eu consigo ler:«Filhota, estou muito contente contigo, sabes poupar-me, sabes que, quanto mais desperdício, mais poluição e mais produção de venenos, para eu. Gaia, engolir! Até na própria reciclagem se emitem tóxicos!» E eu repondo: «Mamã Gaia, enquanto eu retiver na minha memória visual, aqueles dois pés de uma criança africana, metidos dentro de duas garrafas de plástico, transformadas em sapatos, não deixarei que a loucura do 'deita fora' me atinja!»

Florinda Isabel


 

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